A água estava estranhamente quente e meu corpo afundou como uma pedra, meus pés tocaram o fundo calcário do lago e eu aproveitei a flexão dos meus joelhos para impulsionar meu corpo de volta à superfície. Quando emergi olhei para as bordas do lado à procura da entrada que havia visto do alto da plataforma em que estava. Localizei-a no outro extremo do lago, uma boca negra esperando para engolir o próximo a se aproximar.
Nadei até a praia rochosa próxima à entrada do túnel e me sentei ali por um instante, recuperando o fôlego. Levantei-me, dei uma última olhada para a cachoeira e o lago e entrei no túnel. Era tão escuro e úmido quanto o outro fora, porém este era quente e abafado e parecia sempre descer. Curvas e mais curvas depois eu tinha a sensação de que centenas de milhares de toneladas de terra e rocha estavam comprimidas sobre a minha cabeça, essa sensação estava me dando náuseas. De repente uma lufada de ar fresco invadiu o túnel apertado e bateu em cheio no meu rosto.
Sob meus pés eu senti uma mudança estranha. Antes meus passos eram abafados pela terra fofa que estava acumulada no chão, meus passos passaram a ecoar nas paredes claustrofóbicas daquela garganta. Eu me abaixei e toquei no chão, era frio e liso, parecia revestido de lajotas. Eu continuei caminhando e o ambiente foi ficando mais claro. Logo as paredes e o teto também estavam cobertos por aqueles azulejos.
Mais a frente lâmpadas fluorescentes apareceram nas paredes, iluminando o túnel. As lajotas das paredes eram brancas, lisas, simples; não tinham nenhum enfeite. Eu segui adiante pelo túnel que agora se tornara tão frio quanto o aquele em que estivera antes de mergulhar no lago transparente. Tudo isso parecia ter ocorrido há dias, mas eu sequer tinha parado para descansar. Meu estômago já roncava de fome, e minha boca começava a secar com o ar frio do túnel azulejado. Tive a impressão de ouvir batidas abafadas vindo da frente.
Parei. Apurei os ouvidos e tentei escutar. Sim, havia batidas mais a frente. Como um imenso martelo batendo em uma bigorna envolvida por um pano para abafar o barulho. Eu continuei andando. O túnel que antes era retilíneo agora se tornara sinuoso. Curvas e mais curvas se sucediam à minha frente. Entrementes o som continuava a ficar mais alto. Quando atingiu o máximo de volume deparei-me com uma pesada porta de aço em minha frente. Aproximei-me e vi que ela possuía uma fechadura moderna e extremamente complexa. Tentei forçá-la, mas ela não cedeu. Encostei as costas na parede e escorreguei lentamente para o chão. Quando sentei no chão perolado um tilintar metálico se fez ouvir no túnel.
Eu pus a mão no meu bolso esquerdo e meus dedos tocaram algo frio e sólido: um molho. Levantei-me rapidamente e olhei as chaves. Uma delas, a mais requintada, chamou minha atenção. Eu olhei para a fechadura na porta e depois para a chave. Ela parecia caber. Introduzi-a na fechadura. Hesitei durante alguns batimentos cardíacos. Girei-a. Com um suave clique a porta destrancou. Eu retirei a chave e guardei o molho no bolso da calça. Encarei a porta, ouvindo o intenso e grave barulho que a atravessava, vibrando no meu corpo. Apoiei as mão no metal gelado e empurrei a pesada porta.

